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Quinta, 2 de Setembro de 2010

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    Segunda, 8 de Fevereiro de 2010 - 08h07

    Intelectuais acusam Chico César de usar shows na campanha de Ricardo

    Intelectuais de peso no meio cultural paraibano, a exemplo do poeta Ed Porto e a crítica literária Sônia Vandijk, fazem duras críticas à gestão do cantor e compositor Chico César na presidência da Fundação de Cultura de João Pessoa (Funjope).

    Ed e Sônia acusam o artista de promover shows populares pagos com dinheiro público em instrumento da campanha para governador do prefeito Ricardo Ricardo (PSB). Dizem ainda que a última edição do Estação Nordeste não passou de uma corrente entre amigos, porque a Prefeitura teria contratado a maioria das atrações entre parceiros musicais de Chico.

    As críticas e acusações do poeta e da professora circulam desde o início do mês na Internet, em mensagens que chegam a milhares de pessoas que participam de alguma forma da vida artístico-cultural da Capital paraibana. A mensagem de Ed foi dirigida originalmente a jornalista Ruth Avelino, que integra o Departamento de Marketing da PMJP. A de Sônia Vandijk derivou daquela postada pelo poeta.

    Leia a transcrição das duas mensagens, a seguir.

    Ed Porto: "Estação Nordeste tem claramente a função político-eleitoreira de angariar votos"

    Cara Ruth, começo pelo fim do primeiro post: P.S.: O blogueiro viajou a João Pessoa (PB) a convite da Funjope. É lastimável saber que a dinheirama gasta com os shows musicais realizados nos últimos dois meses também tenha sido usada para financiar a vinda de um blogueiro carioca à nossa província cultural chamada de João Pessoa.

    O senhor Mauro Ferreira se equivoca duplamente ao escrever “o cantor e compositor vem conciliando sua agenda artística com os compromissos assumidos como Secretário de Cultura da Fundação Cultural de João Pessoa, a Funjope”. Primeiro porque não é verdade que Chico César esteja conciliando sua agenda artística.

    Já cansei de provar que ele prioriza esta sua agenda em detrimento das funções de funcionário “público” pela qual percebe mensalmente para resolver os inúmeros problemas nos quais a Funjope está imersa. Segundo porque Chico César não é secretário de cultura, mas sim presidente da Funjope. Que eu saiba não existe o cargo de secretário de cultura no organograma da PMJP. Parece que o próprio Chico se autodenomina soberbamente de secretário, pois afirma que “o artista ajuda o secretário”.

    Outro absurdo escrito é o seguinte: O artista - visto acima em foto de Mauro Ferreira - alega que desempenha sua função política com "visão social". Que “visão social” é esta gente? Por favor, me apontem apenas uma, umazinha sequer, não mais que uma ação que possamos chamar de social realizada pelo senhor Chico César nesses 9 longos meses com presidente da Funjope.

    A organização da Estação Nordeste tem claramente a função político-eleitoreira de angariar votos para o prefeito da capital paraibana. Este é mais um evento musical promovido pela Funjope, a promotora de shows musicais do município. Esta Fundação tem se especializado neste tipo de evento, enquanto abandona as outras artes. Atente para o estado de penúria que se encontra, por exemplo, o teatro local. Os poucos teatros da nossa província nos apresentam “peças” de péssimo gosto. E olha que ela é repleta de atores e grupos de renome nacional. Que dizer da literatura, da fotografia, do audiovisual etc. da nossa província cultural?

    Para não dizer que só aponto inverdades no post lido, destaco uma grande verdade: “E reconhece que ser artista facilita o acesso aos colegas, bem como a negociação de contratos". Concordo que o presidente da Funjope deve ter tido fácil acesso aos seus colegas cantores e compositores. Se me aprofundar muito numa pesquisa, elenco alguns destes artistas que encheram seus bolsos neste evento e que são, digamos, “próximos” ao Chico: Lanny Gordin (tocou no primeiro disco de Chico), Ray Lema (são parceiros musicais e fizeram shows juntos. Veja em www.raylema.com), Paulinho Moska (parceiro de Chico), Pinduca (Chico gravou num disco dele) e Daniela Mercury (gravou A Primeira Vista). Um parêntese: nada de mais umas participaçãozinhas (licenças poéticas) nos shows dos colegas né Chico? Deve ser uma massagem bacana no ego.

    Tudo isto não deixa de ser uma forma de retribuir os favores recebidos de seus colegas parceiros. Só que é um método onde se usa dinheiro público. Falar em dinheiro público, onde é que publicaram os gastos com o Música do Mundo e com o Estação Nordeste? Na secretaria da transparência pública creio eu. Lá deve ter tudo direitinho: o cachê de uma show de artista local e de um não local. Aí dá pra gente comparar o quanto vale o nosso santinho de casa.

    Mauro deve ter se esquecido de postar umas linhas sobre a programação do dia 28/01/2010. É gente, o Estação Nordeste foi tão bem sucedido que ainda rolou uma programação extra, divulgada pela mídia como democrática, pois oportunizou a chama música gospel. Pasmem! Nunca antes neste país, ôps, neste município, o mirrado orçamento municipal custeou um show musical gospel. Cadê o estado laico? Será que é mera coincidência que estejamos em ano eleitoral? Afinal de contas os crentes também votam né? Haja paciência, com tanto coleguismo minha cara Ruth. Abraço, Ed.

    Sônia: "Chico César apostou em ser celebridade política pessoense, fazendo de conta que é gestor de assuntos culturais"

    Ivaldo, Ed Porto, Ruth Avelino e caros amigos que estão recebendo esta mensagem em Cco.

    Faz muito tempo, que prometi a mim mesma não participar das discussões das "igrejinhas" culturais de João Pessoa. Participar de tais discussões é sempre muito arriscado... - pode-se perder a plumagem em alguma fogueira das vaidades... Mas, apesar de ter insistentemente pedido a meu amigo Ivaldo para não receber mensagens da lista que ele coordena, continuo recebendo as mensagens do grupo livrepensar - fazer o quê? dou uma olhada nas novidades da politicagem, fico sabendo do sucesso de algum artista da terra, e, de repente, vejo o lúcido texto de Ed Porto.

    Antes de continuar devo dizer que tenho o privilégio de contar entre minhas relações de amizade alguns artistas, muitos intelectuais, jornalistas, poetas e outros tantos representantes da inteligência paraibana, entre os quais o poeta Ed Porto, que destaco por ter provocado essa minha vontade de falar da "igrejinha" da cultura paraibana - ou das "igrejinhas", uma vez que a "igreja" muda conforme quem esteja participando do poder... - mas, é "igreja" sempre pequena, mesquinha, medíocre, imediatista, oportunista, e, por isso, minha preferência pelo diminutivo.

    Antes que me esqueça (ou que me ataquem inutilmente): sou fã do compositor e cantor Chico César. Tenho certeza de que seu talento, caso seja retomado em permanente exercício de aprimoramento, fará dele um dos maiores nomes da MPB, com letras inteligentes e desafiadoras, como tem mostrado.

    Mas... "Vamos combinar...". Ser artista de talento não transforma ninguém em gestor de talento dos assuntos culturais. E é isso que faz a confusão pessoense em que se vive. Para faturar popularidade (populismo), fatura-se no sucesso de um artista que goza de grande popularidade... E o artista, esquecido de que é artista, aceita travestir-se de gestor de assuntos culturais. Nesse procedimento acordado pela parte que tem o poder de convidar e a que tem a popularidade a oferecer para o sucesso de quem detém o poder, só o cidadão comum e anônimo sai perdendo. Vejamos.

    O poderoso que convida (no caso o Prefeito) anota, na coluna lucro, "atitude 'democrática'", "aproximação das camadas populares", "publicidade assegurada", "identificação com aquela camada chamada 'povo'", "muito barulho com pouco investimento", e, principalmente, segue fiel ao populismo, que sempre tem orientado a superficialidade das políticas de cultura no Brasil (e João Pessoa não está fora da regra geral).

    O convidado, disposto a travestir-se de gestor de políticas culturais, só pensa em se tornar celebridade com autoridade e reconhecimento em seu torrão natal. "Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade. Exceto amar a Deus" (quem quiser que consulte a Imitação de Cristo para saber a combinação dos versículos). Além da vantagem de se aproximar daquilo que pensa ser poder, o convidado passa a receber um bom salário, que lhe proporciona certa tranquilidade para cuidar de sua carreira artística. E como função pública é mesmo "casa de mãe joana", ninguém vai gastar seu tempo de fazer carreira, para ser gestor de assuntos culturais em tempo integral, e, nas horas vagas, promove-se algum evento de gosto ou de qualidade duvidosos em termos de enriquecimento cultural de quem lhe paga o salário.

    Lamentavelmente, o talentoso Chico César apostou em ser celebridade política pessoense, fazendo de conta que é gestor de assuntos culturais, sem se esquecer de cuidar de sua trajetória como artista, e está na berlinda. Mas, isso já aconteceu antes - na verdade, isso sempre acontece - e nada disso é estranho nem no âmbito estadual e nem no federal.

    E aí está mais uma pífia gestão cultural, que se limita a shows musicais (de gosto e de qualidade duvidosos...), que bem cabem na velha fórmula "pão e circo". Com um orçamento miserável, a cultura estabelece preços diferentes para artistas locais e de outras paragens, nos shows musicais para alegrar o "povo". Limitada ao orçamento miserável, a gestão cultural desconhece o patrimônio arquitetônico arruinado; faz de conta que João Pessoa não tem poetas, narradores, dramaturgos, artistas plásticos (além daqueles da "igrejinha"), e se limita a promover pão e circo... - e ainda tem o luxo de selecionar, nesse pão e circo, a "igrejinha" dentro da "igrejinha", conforme denuncia Ed Porto (ver texto abaixo).

    Como frequentemente vou aos lançamentos de livros dos muitos amigos que tenho em João Pessoa, sempre notei a falta de gente da Funjope - Chico César nunca foi visto por mim - sem dúvida, teria feito a tietagem de pedir um autógrafo no guardanapo... Essa gente é importante demais promovendo shows musicais; e, em um país de analfabetos funcionais, literatura, crítica literária, cinema e crítica cinematográfica não dão nem prestígio e nem votos. Nos shows musicais, o "povo" tem mais facilidade de conferir a política cultural e as ações da Funjope - e a armada populista sempre pode resultar em bom lucro de votos. Pão e circo - cultura levada a sério?

    Cultura custa caro; é assunto muito amplo e requer trabalho e dedicação e competência de quem assume sua gestão política - e requer, principalmente, ampla vivência cultural. Aí está o Espaço Cultural (único exemplo de arquitetura pós-moderna de João Pessoa) que não me deixa mentir: faz anos que a gestão estadual achou mais operacional transformar a coisa em espaço de feiras comerciais, do que se dá ao trabalho de cultivar um espaço de cultura e arte - entra governo e sai governo estadual, e o Espaço Cultural não passa de um espaço de feiras comerciais de qualidade cultural zero.

    Não é privilégio e nem originalidade da Paraíba ou de João Pessoa a mentalidade torta a respeito de assuntos culturais. O cinismo político-cultural brasileiro comemora um tombamento, quando amesquinha verbas para a política cultural e deixa que entre em ruína um vasto patrimônio artístico, cultural e histórico. Sai mais barato instituir o Dia da Baiana do Acarajé do que preservar uma igreja barroca ou o arquivo de um compositor barroco. Sai mais barato trazer um cantor da "igrejinha" para um show de verão do que cuidar do Teatro Santa Roza. O mais grave é que, na opção do mais barato, apenas se contabilizam os votos do populismo. O mais triste é que, quando se faz de conta que se mostra um projeto ousado como a Estação Ciência (no Cabo Branco), logo se descobre que o descaso, a falta de compromisso com a coisa pública, a corrupção, deixaram de cumprir os mais mesquinhos princípios de respeito ao ambiente e de saneamento básico, e que a denúncia de tal erro serve apenas como arma politiqueira e não como correção do errado, para benefício da população - misturam-se erros, corrupção, irresponsabilidade, oportunismo politiqueiro, disputa política mesquinha, como farinha do mesmo saco. Sem falar nos ecochatos avessos a eventos culturais, que agitam a bandeira oportunista como prova de seriedade. A vitória será de quem tiver mais votos na próxima eleição, e cultura não passa, ocasionalmente, de um assunto motivador da disputa.

    Não posso terminar esse meu longo e chatíssimo texto sem dirigir uma palavra à brilhante jornalista Ruth Avelino. Lamentavelmente, desde que alugou sua competência à atual gestão municipal, a competência da jornalista foi encoberta pela marqueteira das ações do prefeito, nem sempre de valor político, cultural, humanístico a merecer crédito. Possivelmente, a profissional Ruth Avelino anda esquecida do rigor crítico que tanto a caracterizou no passado, ao falar de questões políticas, culturais e humanísticas, empolgada que está em alimentar o populismo orientador da política do atual gestor do município. Talvez tenha sido por seu entusiasmo em saudar "qualquer coisa" que a jornalista Ruth Avelino tenha deixado de lado o senso crítico ao dizer que Mauro Ferreira, jornalista e crítico carioca, esteve em joão Pessoa para "prestigiar o Estação Nordeste" - quem é esse Mauro Ferreira, cara Ruth, que sua presença em um evento em João Pessoa já se traduz em prestígio? quem levou vantagem a partir da presença desse ilustre jornalista e crítico? o que a população de João Pessoa vai ganhar depois de ter pago as mordomias para que esse Mauro Ferreira nos tenha dado a honra de sua visita prestigiosa? Minha cara Ruth, nada tenho a ensinar a você. Mas, como sempre admirei seu trabalho como jornalista, não resisto em dizer que um pouco de senso crítico e um tanto de comedimento na linguagem marqueteira não fazem mal - claro que sei que você é paga para cometer esses atentados ao bom senso; só estou sugerindo um tantinho de comedimento na linguagem, pois propaganda vazia não leva a nada (você sabe disso muito melhor do que eu - e sei que só está fazendo o papel para que foi convidada e aceitou). Minha admiração por você não diminui - até pelo fato de ler/ver como você é capaz de noticiar a mediocridade como grande acontecimento. O que lamento é você estar emprestando seu baita talento para uma causa sem causa.

    Ivaldo, Ed Porto e caros amigos, se concordarem com minha longa arenga, repassem. Não se preocupem com o repasse, pois sei que é arriscado meter a mão em formigueiro e mais arriscado ainda meter-se na discussão das "igrejinhas' pessoenses. Não se preocupem, pois eu talvez só receba alguns ataques personalistas (que não responderei) e perca uns poucos amigos - ficarei livre da poeira dos ataques e lamentarei a falta de senso crítico dos amigos que perder. Mas, se meu risco de meter-me nos assuntos da cultura paraibana contribuir para o debate crítico, ficarei na certeza de que valeu a pena dizer que a há graves equívocos na gestão da política cultural de João Pessoa.

     

    O outro lado

    O Portal Correio entrou em contato com a assessoria de comunicação da Funjope, sendo informado que o presidente da Fundação não se encontrava, ficando o compromisso do retorno. Até às 9h49 a redação não foi contactada, ficando à disposição do órgão o direito de resposta.

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